Um espelho onde se ver. As referências femininas da cultura juvenil

Mostremos a nossa radical intolerância com respeito à pobreza, à violência e às variadas formas de exclusão e prisão, e a nossa vontade de fazer extensivo o desenvolvimento, a democracia genérica e as liberdades para todas as mulheres. (Marcela Lagarde)

Em um artigo desta mesma seção intitulado “De Tyler Durden a Deadpool: o sociopata como modelo na cultura juvenil”, Juan González-Anleo refletia com bastante acerto sobre os péssimos modelos de conduta que representam algumas das figuras mais populares da cultura juvenil e citava como exemplos o Dead Pool, Wolverine (X-Men) ou o Curinga (Batman).

Talvez seja hora de reconhecer a influência positiva que estão exercendo outras referências juvenis que, sendo conscientes da extraordinária repercussão que possuem cada um dos seus atos, estão levando a sociedade em geral e os jovens em particular a refletirem. Sendo hoje dia 8 de março (Dia Internacional da Mulher), pensamos ser interessante enfocar nas referências femininas e nas mensagens que estão nos enviando.

Poderíamos começar por Emma Watson. A sua personagem Hermione, da saga Harry Potter, converteu a atriz em uma referência inquestionável da cultura juvenil. Precisamente por isso, decidiu trabalhar ativamente para eliminar as desigualdades de gênero em todo o mundo. Em junho de 2014, iniciou o movimento HeForShe e foi nomeada embaixadora da boa vontade da ONU Mulheres. O seu discurso se tornou viral em pouco tempo:

Eu fui indicada para ser embaixadora da Boa Vontade da ONU Mulheres, há seis meses, e quanto mais eu falo sobre feminismo mais eu me deparo com a realidade de que lutar pelos direitos das mulheres, muitas vezes, vira sinônimo de guerra dos sexos. Isso, com certeza, tem que acabar. […] Estamos lutando por uma palavra de união, e a boa notícia é que agora temos um movimento de união. Ele se chama HeForShe. E te convido a se mobilizar, a ser visível. E se pergunte: Se eu não o fizer, quem o fará? E se não for agora, será quando?  [Emma Watson_ Discurso Nações Unidas 20/09/2014_163.915 visualizações no YouTube].

O discurso de Emma Whatson (e convido vocês para escutá-lo completo) também colocará sobre a mesa as consequências nefastas que o machismo tem para os homens, sendo convertidos em pessoas frágeis e inseguras por um sentido distorcido do que é o sucesso masculino. Uma realidade da qual se fala pouco e que afeta muitos adolescentes e jovens em uma etapa da vida em que ocorrem fenômenos e transformações que configuram em grande medida a pessoa e a sua relação com o resto.

 

Harry Styles. One Direction

Harry Styles. One Direction

 

Muitos homens que também são referências da cultura juvenil se uniram ao movimento HeForShe, como Harry Styles (líder do grupo One Direction), Joseph Gordon-Levitt (protagonista de filmes como 10 Coisas que Eu Odeio em Você ou American Pie) e Matthew Lewis (Neville Longbottom, em Harry Potter).

 

 

 

Há apenas um ano, o jornal El País publicou os resultados de uma pesquisa realizada pela Educa2020, Fundación AXA e analisada pela GAD3, na qual foi apresentada para 12.000 jovens espanhóis entre 16 e 19 anos a seguinte pergunta: “qual personagem público você gostaria de ser parecido quando for mais velho?”

 

¿Que quieres ser de mayor?

Fuente:Educación 2020/GAD3

Emma Watson foi apontada como a terceira referência mais importante para as adolescentes e jovens espanholas depois de Amancio Ortega e as suas próprias mães.

Os resultados também demonstram que elas mencionaram referências tanto femininas quanto masculinas, pertencentes ao âmbito da cultura, moda, arquitetura e ciência. Já os meninos, que mostraram as suas preferências pelas figuras do esporte (5,9 %) e pela empresa, não situam nenhuma mulher entre as suas principais referências, o que indica a necessidade de visibilizar a sua presença no mundo do esporte, da política, dos negócios, da cultura ou da pesquisa.

 

A cantora Beyoncé, estrela da música pop e referência para milhares de jovens, não só transmite nas letras de canções como Girls (Who Run This World) mensagens de reconhecimento ao lugar que ocupam as mulheres no mundo através do seu esforço diário, mas também está envolvida em trabalhos de organizações sociais como a Global Citizen ou The Shriver Report. Para esta segunda organização, escreveu um ensaio intitulado “Igualdade de gênero é um mito” dentro de um projeto no qual se examinou a questão da insegurança financeira das mulheres norte-americanas. Destacamos o seguinte fragmento[i]:

“A humanidade precisa tanto dos homens como das mulheres; somos todos igualmente importantes e precisamos uns dos outros. Então, porque é que nós somos vistas como tendo menos direitos? Estas velhas atitudes são-nos incutidas desde o começo. Temos de ensinar aos nossos filhos sobre as regras da igualdade e respeito e quando crescerem, a igualdade de gêneros seja algo natural. E temos de ensinar às nossas filhas que elas podem chegar tão longe como qualquer ser humano”. (Beyoncé (2014). Gender Equality Is a Myth!).

Este artigo não trata de exaltar aquelas pessoas que se converteram em referências juvenis seja qual for a razão pela qual se tornaram referências, mas sim as mensagens que transmitem ao público que as segue. Na Espanha, também encontramos exemplos de jovens que incentivam a reflexão aproveitando as possibilidades que a sua popularidade lhes brinda:

“Ao falar de feminismo, e eu me incluo, parece que todo o mundo sabe sobre o tema e muitos dizem ‘eu não sou nem feminista nem machista’, isso é algo muito comum de escutar. E ao final das contas, o feminismo é a busca pelos direitos da mulher, que isso deriva na igualdade e na sua própria liberdade” (Amaia Romero_ entrevista Onda Cero Navarra).

A exposição simples e honesta do que representa o feminismo realizada por Amaia, vencedora do programa de talento musical Operación Triunfo (Operação Triunfo), incentiva a deixar de lado os bombardeios mediático e a má imprensa que rodeia este movimento para compreendê-lo em relação à sua verdadeira razão de ser: a busca da igualdade entre homens e mulheres. Um comentário que acabou virando Trending Topic no Twitter e que suscitou o acordo da maioria dos usuários desta rede social na Espanha.

Em outros casos, figuras reconhecidas e reconhecíveis do cinema, da música ou da televisão se uniram a campanhas que buscam denunciar situações de abuso e violência contra as mulheres. Como escreveu há pouco tempo Mª Ángeles López Romero na revista Religión y Escuela“os movimentos #metoo e #timesup estão abrindo a pesada cortina que caía sobre os casos de assédio, estrupos, discriminação e invisibilização das mulheres em âmbitos aparentemente fiáveis, como o luminoso Hollywood ou o brilhante esporte olímpico”.

A repercussão que está tendo o movimento #metoo se deve, em grande parte, ao poder de influência das estrelas de Hollywood que estão apoiando-o através das redes sociais. Não nos esqueçamos que este é um espaço no qual, por excelência, os jovens transitam atualmente. Por isso, é importante pensar sobre os elementos visíveis e invisíveis que o configuram, mesmo sendo ainda cedo para extrair conclusões definitivas.

Neste caso em concreto, a Internet se mostrou como uma ferramenta imprescindível para acabar com a cultura do silêncio:

Tweet Alyssa Milano“Me too”. Sugerido por um amigo: “Se todas as mulheres que sofreram assédio sexual ou que foram estrupadas escrevessem “Me too” como status, daríamos às pessoas uma ideia da magnitude do problema.

Tweet de Alyssa Milano (atriz protagonista do seriado Jovens Bruxas), 24. 752 “retweets” e  53. 386 “curtidas”.

 

 

 Porém o movimento #Metoo é algo mais do que um movimento de denúncia, como destacou Marian Martínez durante o seminário “Identidades de gênero na juventude: existem mudanças?” organizado pelo Centro Reina Sofía. Ele traz implícito uma forma de pensar o “eu” (me) na pluralidade “nós” (too), o que, em um tempo histórico marcado pelo individualismo, devolve a esperança para a necessidade de abordar este e outros problemas globais de maneira coletiva. Embora possa surpreender a alguns, a maioria dos especialistas em sociologia da juventude afirmam em destacar esta nova geração de jovens como a geração weTal termo que se refere ao vínculo que estabelecem os jovens com as tecnologias digitais e a Internet, e a presença de uma consciência solidária, cujos valores iriam além do material, baseados na sociabilidade humana e no sentido de justiça. Isso tornaria os jovens mais conscientes com respeito às desigualdades que imperam na sociedade (Reig e Vilches, 2013[ii]).

Existem outros elementos presentes no movimento #metoo de igual importância se, como enfatizamos, está chegando até os jovens através das redes sociais e de outros canais. Um deles seria a cultura da escuta, só desta forma foi possível a criação de um clima de confiança (dentro e fora das redes), pelo que muitas mulheres deixaram de lado o medo, o sentimento de culpa ou a vergonha para falar abertamente do seu caso. O outro elemento seria o poder da empatia; como a capacidade de se identificar com alguém e compartilhar os seus sentimentos. Isso, além da popularidade das suas promotoras, explicaria a grande repercussão que este movimento está tendo no mundo inteiro.

Escutar, reconhecer e sentir empatia são os três principais elementos que configuram a ideia de sororidade. Um conceito que, com certa segurança, irá adquirindo relevância em poucos anos e que apresenta a ideia de uma “irmandade” entre mulheres ao se verem como iguais que podem se unirem, compartilhar e, sobretudo, transformar a sua realidade. Não se trata de se unir contra ninguém, mas de se unir para estabelecer uma nova forma de relações igualitárias entre homens e mulheres baseadas no reconhecimento mútuo.

As sociedades estão mostrando sinais de mudanças e, em meio a essa transformação, os jovens e algumas das suas referências parecem estar levando a bandeira da igualdade.

Autora: Ariana Pérez 
Notas:

[i] Shriver, M. (2014). A woman’s nation pushes back from the brink. Center for American Progress. Eds. Olivia Morgan and Karen Skelton. New York: Palgrave Macmillan.

[ii] Reig, D. y Luis Vilches (2013), Los jóvenes en la era de la hiperconectividad: tendencias, claves y miradas. Madrid: Fundación Telefónica/Fundación Encuentro.