Miserials III. A revolução silenciosa

Em 1966, Andy Dufresne escapou da prisão de Shawshank. Tudo que encontraram dele foram as roupas enlameadas de um prisioneiro, uma barra de sabão e um pequeno martelinho de pedras. Eu pensava que demoraria uns 600 anos para abrir um túnel nas paredes com aquilo, mas o velho Andy fez em menos de 20. Oh, Andy adorava geologia, eu acho que tinha a ver com sua natureza meticulosa: uma era do gelo aqui, montanhas se construindo em milhões de anos ali. A geologia é o estudo da pressão e do tempo. E foi só o que precisou: pressão… e tempo. Ah, e um maldito pôster enorme”.

Um Sonho de Liberdade

“As civilizações não morrem assassinadas, se suicidam”,  Arnold J. Toynbee

Eu comecei a primeira entrega de Miserials com uma citação de Simone de Beauvoir que para mim reflete muito bem a situação atual da Espanha, mas que, no caso da sistemática pauperização e exclusão social dos jovens, parece inclusive “grosseiramente” precisa: “o que é mais escandaloso no escândalo é que nos acostumamos a ele”. À raíz das duas anteriores entregas de Miserials, alguns me perguntaram “realmente estamos nos acostumando a isso? Por que não acontece nada?”. Acho que as pessoas que perguntam isso têm em mente algum tipo de rebelião juvenil (ou do conjunto da sociedade em defesa dos seus jovens, por que não?). A ideia realmente não é nada descabida. Apenas uns meses após os acontecimentos do 15M de 2012, 73% dos espanhóis, segundo dados do CIS – Centro de Investigaciones Sociológicas, pensavam que o país estava à beira de uma explosão social. Se hoje fosse feita uma enquete similar, o mais provável seria que aqueles que esperam algum tipo de rebelião, pelo menos por parte dos jovens, sejam inclusive menos do que os que ainda esperam Godot.

Tudo isso significa que não está acontecendo nada? Não. Temos uma ideia bastante romântica (e ingênua) do que é uma revolução: lançamento de paralelepípedos, cabeças abertas, carros em chamas, golpes por todos os lados… Realmente, essas revoluções “explosivas” servem para pouco fora do campo do simbólico, especialmente se por revolução entendemos um movimento que mina os pilares de um sistema. As revoluções mais efetivas da história não são as espetaculares e explosivas, mas as que raramente saem nos meios de comunicação, revoluções “geológicas” que, silenciosamente, de forma lenta mas inexorável, simplesmente aplicando a “suficiente” pressão e o “suficiente” tempo, vão corroendo as fundações sobre as quais uma sociedade se ergue até que esta, já sem um pilar sólido que a sustente, desmorona por seu próprio peso. Quando perguntaram a Jean Paul Sartre sobre as possibilidades de sucesso da revolução juvenil de 68, ele respondeu que, se não incluía a classe trabalhadora, as possibilidades se reduziam a zero, já que esta era a única que realmente tinha algo que a sociedade necessitava para poder continuar funcionando (cereais, pão, carne, ferro, etc.), enquanto os jovens não tinham nada disso. Realmente é assim? Se temos em mente uma revolução “explosiva” que pretende atravessar uma barra de ferro nas rodas do sistema e fazer com que ele se descarrilhe imediatamente, sem dúvida. Se, ao contrário, estamos falando de uma revolução “geológica”, os jovens têm em suas mãos o produto mais importante para fazer funcionar qualquer sociedade: sua inovação, suas aposentadorias, seus filhos, em outras palavras, seu futuro… quase nada.

Há pouco mais de 20 anos, a minha futura diretora de tese em Heidelberg me recebeu em seu escritório com um largo sorriso. Contei para ela que tinham me falado muito bem dela como especialista em família, e que eu queria escrever sobre as causas e possíveis consequências do baixo índice de natalidade na Espanha, “um dos mais baixos do mundo que, além disso…”. Nesse momento, ela me interrompeu com a mão e um sorriso condescendente: “vejamos, a abordagem está boa, mas não precisa exagerar…”, disse, “a Espanha é um país com uma taxa de natalidade bastante alta, sempre foi assim”. Como eu tinha sido advertido para ir bem preparado para a entrevista, levava comigo uma grande pasta lotada de recortes de jornal e xerox, que de imediato coloquei sobre a mesa dela. Ao examiná-los, em silêncio, aquele sorriso condescendente foi desaparecendo pouco a pouco, até que ela olhou para mim e exclamou: “mas… isso é ter-rí-vel!”.

Gráfico 1. Índices de Natalidade em 8 países europeus (1950-2000)

Gráfico 1. Indices de Natalidad

Fonte: Eurostat (elaboração própria)

 

O que era tão ter-rí-vel “há mais de 20 anos”? A brutal queda da taxa de natalidade na Espanha, que, como podemos ver no gráfico 1, deixa de ser um país com um índice de natalidade médio-alto, muito acima do que os especialistas chamam o limiar de substituição (2,1 filhos por mulher), para se situar no último posto da União Europeia – UE em um tempo recorde, com uma inclinação consideravelmente mais acentuada que o resto dos países, sem apresentar na última década do século, diferente de muitos deles, nem sinais de melhoria nem, pelo menos, de estabilização.

Poucos anos depois, em 2000, a ONU publicou um relatório que reunia a gravidade da situação e que, para muitos, dava já por perdida para a maioria dos países (entre eles, a Espanha) a batalha para incentivar a natalidade, propondo diretamente a substituição por cotas muito mais elevadas de entrada de imigrantes, a maioria pessoas jovens e com índices de natalidade mais altos do que o da população autóctone (pelo menos a primeira geração). No caso concreto da Espanha, com uma cota estabelecida de 30.000 por ano naquela época, o relatório calculava que seria necessário um fluxo migratório “dez vezes” superior para uma ligeira recuperação da população a longo prazo. Essas cotas, como era de se esperar, nunca foram alcançadas, conseguindo uma certa estabilização “de mínimos” nos anos de bolha econômica para começar a ser, uma vez mais, já iniciada a crise, um país de emigrantes. Entre 2008 e 2016, a situação se agrava: a ação conjunta da baixa natalidade e da emigração faz com que a Espanha perca 2,6 milhões de pessoas, com 2015, o ano de virada, em que pela primeira vez o número de mortes superou o de nascimentos, um número inferior, inclusive, ao registrado em plena guerra civil. A esta situação – e atualmente com 1,15 filhos por mulher, muito abaixo, portanto, do limiar de substituição – os especialistas deram o nome de “suicídio demográfico”. Exagerado?

O fenômeno da natalidade responde à lógica da acumulação exponencial típica das avalanches, quero dizer: com mais de 35 anos, já abaixo do limiar de substituição, o número de mulheres férteis diminuiu drasticamente, dada a perda de população justamente nessa faixa etária. Produz-se, além disso, uma interação negativa entre a fertilidade “desejada” e a “real”, ou seja, as expectativas dos pais na hora de pensarem no número de filhos que desejam ter se ajustam para baixo, quando o “normal” no seu ambiente é ter poucos ou nenhum filho. O efeito combinado de ambos os mecanismos faz com que a recuperação resulte praticamente impossível, inclusive contando com uma imigração com a qual, há muito tempo, não contamos, pelo que as projeções do número de população para os próximos 30-40 anos são simplesmente desoladoras: a menos que ocorra algum tipo de milagre, já a partir do ano passado, 2017, a população espanhola diminuirá ininterrupitamente, e o fará em sua base, ou seja, com o sistemático desaparecimento dos jovens-adultos, jovens e crianças, até que a chamada pirâmide populacional (atualmente uma pirâmide com a base mais estreita) fique totalmente invertida, como podemos ver no gráfico a seguir. Até 2066, segundo as projeções do Instituto Nacional de Estadística – INE, um em cada cinco espanhóis terá mais de 80 anos, tendo perdido cerca de 75% dos jovens de 20 a 40 anos, convertendo-se assim, pelo menos desde 2050, na sociedade mais velha do mundo, junto com a do Japão, da Coreia do Sul e da Alemanha.

Gráfico 2. Projeções da população da Espanha (2009-2049)

Fonte: INE. Proyecciones de población 2016-2066 (https://goo.gl/xUZeeJ)

 

Mas, atenção! E se estas projeções fossem otimistas? Sim, você leu corretamente, “otimistas”…  pode ser? Todas ou quase todas as projeções estão baseadas nos dados do INE ou no uso deles pelos organismos internacionais. O INE é um organismo bastante sério, porém, às vezes até os mais sérios invisibilizam certas realidades, fazendo uma peneira mais fina ou mais grossa dos dados, e este é o caso daqueles que se referem à emigração espanhola, como repetidamente denuncia há anos a Marea Granate. Não é que os dados do INE mostrem precisamente uma realidade cor-de-rosa, relatando perdas “anuais” equivalentes a cidades como Sória desde o começo da crise e um saldo negativo ainda na primeira metade de 2017, a maioria jovens (e em idade fértil). No entanto, este organismo continua sem levar em conta os Españoles Residentes Temporales en el Extranjero – ERTA, e sem contar que não é todo mundo que vai embora e se registra nos escritórios diplomáticos, o que resulta enviesado. No ano passado, por exemplo, a Marea Granate realizou uma demonstração deste desajuste, comparando os dados do INE para o Reino Unido e a Irlanda com os registrados nesses países para ter direito a trabalho e assistência sanitária, constatando que as cifras eram três vezes superiores no primeiro caso e cinco no segundo. É também alarmante, nesse sentido, que, segundo um estudo do Centro Reina Sofía do ano passado, supostamente já instalados na recuperação econômica, nada mais e nada menos que 39% dos jovens considerem que é bastante ou muito provável “ter que ir embora para o exterior para trabalhar” .

“Bom”, pensará mais de um leitor, “e o que é que tem? O envelhecimento da população tem que ser necessariamente tão ruim? Os velhinhos são pessoas maravilhosas”. Totalmente certo, mas infelizmente a inversão da pirâmide populacional está associada a toda uma série de efeitos negativos em todos os níveis, segundo os especialistas. Não teremos que esperar até 2066, a maioria de nós vai sentir isso antes de 2050, inclusive, alguns de nós estão começando a sofrer agora. “A consequência final é a extinção”, afirma Alejandro Macarrón, um dos maiores especialistas em demografia da Espanha e autor do livro El suicidio demográfico en España, “mas antes virá um longo período de agonia”. Em que consistirá esse “período”? Irei resumir bastante:

  • A economia sofrerá uma considerável recessão: o crescimento econômico sem crescimento demográfico é uma quimera, mais gente significa mais pessoas trabalhando, investindo, criando riqueza e consumindo.
  • Grande parte da inovação associada historicamente à juventude será perdida, especialmente quando, diferentemente dos anos 60, os emigrados são jovens com altíssima preparação, entre eles, muitos pesquisadores que têm que “fugir” de um país, onde nem o governonem as empresas investem em I+D . Desde o começo da crise, e sobre isso também tivemos que saber por dados externos, a Espanha perdeu 12.000 investigadores.
  • Taxa de Dependência, ou seja, a porcentagem de aposentados em relação à população ativa, atualmente de 26%, aumentará até 41% em 2031, e até 65% em 2066. Em outras palavras: teremos duas pessoas aposentadas para cada três ativas, o que tornará necessária uma pressão fiscal simplesmente descabida para os jovens, nos convertendo em 2050 no segundo país depois do Japão com maior pressão para pagar as aposentadorias, segundo aOCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.
  • As moradias, a fonte mais importante de acumulação de riquezadesde os anos 50 na Espanha, perderão até 75% do seu valor, segundo o Banco Internacional de Pagamentos, ao ir crescendo paulatinamente a oferta em relação à demanda.
  • Além disso, aumentará consideravelmente o número de pessoas solitárias, sem pais, nem irmãos nem algum tipo de família extensa, um grave problema já em muitos países do nosso contexto, a tal ponto de terem criado na Inglaterra um “Ministério da Solidão”, dedicado especificamente a isso. Na Espanha, atualmente, se calcula que4,5 milhões de pessoas vivem sozinhas e que 75% delas sofrem de solidão.
  • Tudo o que foi exposto anteriormente, é lógico, repercutirá nos mais jovens tanto no desejo de emigrar quanto no desejo de ter filhos. Uma frase muito repetida em demografia é a de que “o melhor anticoncepcional é a riqueza”. E isso é verdade, porém existe outro fator tão importante quanto esse: o pessimismo. Quem quer ter filhos em um país com um futuro socioeconômico tão incerto?

A culpa de tudo isso, como se sabe, é das torradas com abacate, não? Isso é, pelo menos, o que disse recentemente o multimilionário australiano, Tim Gurner, que fez uma dura advertência aos jovens do mundo inteiro: se vocês querem formar uma vida, com casa própria, a primeira coisa que devem fazer é deixar de comer caras torradas com abacate… Brilhante! Como outras explicações que se fomentam com os jovens, uns egoístas sem valores que… Pode ser que tudo isso, incluída a tal torrada com abacate, tenha algo a ver. Porém, para um casal de jovens desempregados ou miseuristas formar uma família é simplesmente um luxo… Especialmente, e esta é a grande diferença em relação às épocas passadas, quando inclusive tendo um trabalho não sabem se o terão no mês seguinte graças a esse encantador eufemismo da “flexibilidade” laboral; ou, quando no caso dela, tem consciência de que o seu primeiro filho cairá sobre o seu salário e a sua empregabilidade como uma pedra de cem quilos. Se um jovem sabe que vai receber “este mês” 700 euros, mas não tem a mínima  ideia se trabalhará ou não no mês seguinte, comprará uma jaqueta,  um tênis bacana, pode até acabar comendo uma torrada com abacate; mas não investirá em um futuro que ninguém lhe garante, às vezes sequer para o próximo mês. A jaqueta pode até mesmo ser devolvida na loja ou revendida se necessário… um filho não.

De todo modo, tudo isso importa a quem realmente? A falta de investimento em Indústria e I+D para 0,2% dos espanhóis, segundo o último indicador do CIS; a emigração para 0,3%; a reforma laboral para 0,1%; os “problemas relacionados com a juventude”, assim de forma abstrata, para 2%. E a questão demográfica… já “nem se pergunta” nos indicadores há anos! Porque para que algo importe, primeiro é necessário poder vê-lo, e se com algo concordam “todos” os especialistas em demografia, é que ninguém está interessado em mostrar uma realidade assim, e, sim, em fazer o possível para ocultá-la. Como fazem isso? Fácil. Como acontece com grande parte dos problemas deste país, com um cartaz bem grande: uma página dupla de qualquer jornal de esporte já esconde bastante, um programa de cozinha tradicional na hora do almoço, outro de cozinha contemporânea à tarde, e outro de cozinha futurística-desconstruída à noite. Porém, se do pouco que resta de informativo só se fala do frio nos dias de frio, do calor nos dias de calor e de algum país distante “malíssimo” do qual já sabemos muito mais do que do nosso… pronto! Todos os problemas “reais” cobertos e bem cobertos. Como, segundo o espírito “bacana” da pós-modernidade mindfullness, é feio terminar um artigo com tanto “desânimo”, lanço mão de uma citação de Alejandro Macarrón para dar, pelo menos, um pouco de esperança: “o suicídio demográfico também tem as suas vantagens”, diz o autor, “solucionaria o desemprego, a corrupção, a delinquência… Nos cemitérios”, termina, “não existe nada disso.”

Pode existir, como definimos no início, uma revolução mais “efetiva” do que essa?
Autor: Juan María González-Anleo