Documentário apresenta escola pública como espaço para o exercício da cidadania

Cena 1. Externa. Manhã. Plano aberto. Estudantes passam pelos portões do colégio. A câmera vai se aproximando e percorremos com eles os últimos degraus que separam a instituição da rua. Essa é a deixa para que a vida escolar ganhe a cena em todo o seu vigor. Assim tem início Eleições, documentário de Alice Riff, que traz para o primeiro plano o microcosmo de jovens em preparação para a eleição de um novo grêmio estudantil.

O longa-metragem, que entrará em cartaz no circuito em março, acompanhou, por três meses, o dia a dia do processo de conscientização, estruturação e  eleição do grêmio da Escola Estadual Doutor Alarico Silveira, situada no bairro da Barra Funda, em São Paulo. Filmado em fevereiro de 2018, paralelamente às eleições brasileiras, o documentário apresenta a mobilização do corpo escolar na disputa política entre quatro chapas estudantis – Chapa Rosa, Mais Diversidade, Chapa Identidade e PAS.

No bojo do evento, Riff aborda o cotidiano e os desafios da escola pública brasileira, as dinâmicas de poder existentes, as relações estabelecidas entre os diferentes atores daquele universo, a diversidade e potência dos jovens, as dúvidas e conflitos dos grupos, além da aprendizagem sobre o exercício da cidadania. Tudo isso por meio do olhar e do lugar do jovem. “Foi um processo de construção a partir da escuta e de deixar os estudantes levarem [o filme]. O que eles acharam que era uma pauta importante, a gente transformou em uma pauta importante”, conta a cineasta, que também assina o premiado longa Meu corpo é político.

Além da atuação dos jovens diretamente envolvidos com as campanhas eleitorais, o filme contou com o apoio de um grupo de adolescentes empenhados no trabalho de comunicação, em cena e nos bastidores. “Se a gente quer acompanhar um processo de eleição, uma das peças-chave é a mídia, precisa ter uma mídia responsável pela cobertura. Então, fui conversando com os alunos para ver quem queria cobrir o processo até chegar na Laura e na Lívia. Elas acabaram montando um grupinho de jornalismo na escola. Um dos meninos filmou, uma menina elaborou as perguntas, as duas [Laura e Lívia] apresentaram, e isso se transformou em um laboratoriozinho de jornalismo dentro do filme. A experiência do grêmio não está relacionada apenas com a vivência da participação política, envolve muitas outras questões”, explica Riff.

 

Juventudes e protagonismo em debate

Corta para 19 de fevereiro de 2019, pré-lançamento do filme em São Paulo. O longa termina com a abertura dos portões da escola, quando somos convidados a levar para a vida as questões suscitadas. Após 100 minutos de interjeições, risadas e agitação da plateia, a sala de cinema se converte em palco para a mesa de debate “As juventudes e suas potências: Participação e protagonismo”, composta por Alice Riff, Raquel Franzim (assessora pedagógica do Instituto Alana), Jane Reolo (Mestre em Educação) e Ingrid Fernandes (estudante universitária, ex-integrante do coletivo O mal-educado e participante das ocupacões secundaristas, realizadas em 2015), com mediação de Cris Bartis (cofundadora do podcast Mamilos).

Representando o público jovem, Ingrid Fernandes reflete sobre o filme à luz de sua vivência no movimento de ocupação de escolas em São Paulo. “Em 2015, eu vi a imagem do mundo que eu quero, vi gente que não conversava fazendo coisas junto. Essas miudezas que a gente não vê direito significam, de fato, uma transformação. Uma vez, eu li que protagonismo é a capacidade de tomar iniciativa em prol da transformação social, e que isso vem, geralmente, em decorrência de um despertar crítico. Esse despertar crítico é algo silencioso, a gente não ouve, vem assim e acontece”, explica.

Para Raquel Franzim, a perspectiva das relações, presente na fala de Fernandes, é primordial tanto para um aprofundamento nas questões levantadas pela obra sobre a cultura juvenil quanto para a compreensão do significado das dinâmicas que permeiam o cotidiano escolar. “A gente pode olhar esse filme por diversos ângulos, tem a questão da democracia, da política… Mas a gente precisa abrir um paradigma e olhar para as relações que existem nas escolas, as relações que se dão ali. O direito de aprender  só acontece, em qualquer etapa do ensino, a partir de relações de confiança, estáveis, democráticas, positivas e empoderadoras do outro. Nesse sentido, os conflitos também são favorecedores das relações sociais, a vida é conflituosa e a escola não vai ser diferente da vida”.

Escola e vida se entrelaçam, na concepção de Riff, potencializando as possibilidades de aprendizagem sobre a democracia. “Essa experiência democrática de um grêmio não pode ser a única na vida de um estudante. Ela tem que ser apresentada em várias doses para aprender a negociar, a construir essas relações com a direção, com os professores, com os inspetores… Se essas relações não são construídas em pequenas doses, diariamente, uma hora elas explodem, porque tem um monte de vida ali, um monte de gente que pensa. Não tem como querer que os alunos só respondam e cumpram ordens. A gente sabe que aprender não é sobre isso, não tem só um que ensina e o outro que aprende”. Para Jane Reolo, um olhar cuidadoso para as singularidades e diferenças é o que pode garantir a transformação individual e coletiva. “Acreditar na capacidade humana é acreditar na diversidade, compreender que é esta diversidade que nos dá o poder de ser criativos, de nos superar”, afirma a educadora, que acumula 31 anos de atuação na rede pública de educação.

Essa transformação, tão efervescente quando se trata de juventude, foi justamente o que chamou a atenção de Riff ao longo da produção do filme. “A gente estava filmando adolescentes nesse momento de construção de identidade – quem eu quero ser? Como quero ser visto? Com uma câmera, ele pode fazer um filme, pode ser um personagem. Isso potencializa o quem eu quero ser, como quero ser visto, quem eu quero ser dentro da escola”.

Segundo Fernandes, ao apresentar questões pertinentes à vida de um estudante, o filme registra histórias de protagonismo e gera um sentimento de identificação no público. “A gente se reconhece. No momento em que essas narrativas se encontram, no ato da identificação em que a gente se vê no outro, independentemente de qualquer coisa, a gente consegue se enxergar enquanto sujeito e, silenciosamente, se torna agente da transformação”, conclui a estudante.

Eleições, que estreia no grande circuito no próximo dia 14 de março, já está disponível na plataforma Videocamp para organização de exibições públicas gratuitas.

Confira o trailer do filme: https://www.youtube.com/watch?v=D3sXK-wy2hQ

 

Autora: Priscila Fernandes