A América Latina necessita mais jovens empreendedores e bem formados

A edição do informe “Perspetivas econômicas da América Latina” (“Perspectivas Económicas de América Latina”, título original) deste ano aborda o tema da juventude, as suas habilidades e oportunidades de empreendimento na região. Os responsáveis dos organismos encarregados da sua redação — Alicia Bárcena (secretária-executiva da CEPAL), Enrique García (presidente-executivo da CAF) e Ángel Gurría (secretário-geral da OCDE) — comentaram na Coluna de Opinião do jornal espanhol El País sobre as necessidades de ajustar a educação e capacitação dos jovens latino-americanos às demandas do mercado de trabalho. Também comentaram sobre a urgência de “oferecer melhores oportunidades aos nossos jovens, favorecendo uma estrutura econômica que gere empregos de qualidade e promova a diversificação e integração das atividades econômicas”.

A América Latina necessita mais jovens empreendedores e bem formados

Alicia Bárcena / Enrique García / Ángel Gurría
1 Nov. 2016 — 02:40 CET. Coluna. El País

A América Latina é uma das regiões mais jovens do planeta. Uma quarta parte dos seus habitantes — 163 milhões de pessoas — possui entre 15 e 29 anos, o que constitui uma oportunidade única para construir sociedades mais dinâmicas, inclusivas e equitativas que ofereçam oportunidades para todos.
Para tornar realidade esses objetivos e aproveitar o potencial de transformação da região, devemos garantir que: os nossos jovens estejam devidamente capacitados, contem com as habilidades exigidas pelo mercado de trabalho, possam competir com os demais provenientes de economias mais avançadas e utilizem plenamente o seu talento em projetos de empreendimento inovadores.
A pesar dos avanços nas últimas duas décadas, ainda temos muito trabalho pela frente. Cerca de 70 % dos jovens latino-americanos não têm capacidades técnicas, profissionais e de gestão avançadas; 21 % não estudam, não trabalham nem estão se especializando; e, perante as dificuldades para encontrarem um emprego formal, 19 % conta com empregos de menor qualidade no setor informal, os quais não só atrai os jovens de menor poder aquisitivo, mas também os de classe média emergente.
Essa deficiente inserção dos jovens na economia afeta a capacidade de recuperação econômica da região e limita as possibilidades de reduzir a desigualdade e levar a cabo uma transformação produtiva que acrescente valor aos produtos e reduza a dependência de matérias-primas. Além disso, essa situação impede satisfazer as aspirações de uma juventude latino-americana nascida e criada na democracia, mobilizada e dinâmica.
Em outras palavras, se queremos que todos os países da América Latina deem um salto qualitativo para níveis mais altos de desenvolvimento, deveremos incidir em melhorar as habilidades laborais dos jovens e em favorecer contextos de empreendimento dinâmico, tão atrasados hoje em dia em comparação não só com regiões como a Europa ou os Estados Unidos, mas também com outras economias emergentes da Ásia.
Tal necessidade de formação e empreendimento dos jovens latino-americanos coincide com que, pela primeira vez na história, as pessoas na idade de trabalhar representam o grupo majoritário (o que os especialistas denominam como “bônus demográfico”).
Si conseguimos fundir esse potencial demográfico com as capacidades reforçadas dos jovens através de políticas eficientes bem formuladas, impulsionaremos, em médio prazo, um crescimento mais inclusivo e sustentável na região. Para conseguir isso, devemos oferecer melhores oportunidades para os nossos jovens, favorecendo uma estrutura econômica que gere empregos de qualidade e promova a diversificação e integração das atividades econômicas.
Com o objetivo de dar soluções duradouras e oferecer um conhecimento valioso para os governos da região, a OCDE, a CAF — Banco de Desenvolvimento da América Latina — e a CEPAL, dedicamos o nosso informe anual “Perspetivas econômicas da América Latina 2017” (“Perspectivas Económicas de América Latina 2017”, título original) para examinar a situação socioeconômica da juventude latino-americana e propor uma série de medidas para melhorá-la.
Os países da América Latina devem melhorar significativamente a inclusão política, econômica e social dos seus jovens para que desempenhem o papel de protagonistas que lhes corresponde no desenvolvimento da região. Para isso, é necessário criar mais e melhores empregos, melhorar as habilidades dos trabalhadores e favorecer um ambiente de empreendimento mais dinâmico, especialmente entre os jovens pobres e de classe média vulnerável, os quais historicamente tiveram menores oportunidades para prosperarem.
A América Latina é a região com maiores brechas entre as habilidades requeridas pelo setor privado e as oferecidas pelos trabalhadores; 50 % das empresas não encontram trabalhadores com as qualidades que necessitam, em comparação com a porcentagem de 36 % em países da OCDE. Para reverter essa situação, os programas de formação na região deverão combinar de maneira mais efetiva a aprendizagem na sala de aula com experiências laborais: diversificar a formação para habilidades tanto técnicas quanto “leves”; e estabelecer um melhor vínculo com os serviços de emprego para favorecer a empregabilidade e a conexão entre oferta e demanda. Tudo isso, fortalecerá a mobilidade social entre os jovens latino-americanos e permitirá reduzir os altos níveis de desigualdade na região.
Alguns países na região já mostraram certos avanços e experiências interessantes para reduzir os desajustes de competência. O Brasil, através do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Tecnológico e Emprego (PRONATEC), dá especialização para mais de um milhão de jovens por ano em habilidades profissionais e técnicas demandadas pelas empresas locais. Pela sua vez, o Servicio Nacional de Aprendizaje (Serviço Nacional de Aprendizagem) da Colômbia oferece programas de formação contínua especializada junto com empresas, como a General Motors, brindando aos jovens uma capacitação que é dada pelos próprios profissionais da automotriz. Além disso, cabe destacar iniciativas privadas, como a do Instituto de Formación (Instituto de Formação) da Volkswagen do México, o qual oferece cursos em competências que a automotriz identifica como escassa.
Tais ações estão indo por um bom caminho, mas é necessário fazer mais. No atual contexto econômico, marcado por um modesto crescimento — com projeções próximas a -1 % para 2016 e entre 1,5 e 2 % para 2017 (inferior à fraca recuperação nos países avançados) —, será fundamental dar prioridade aos investimentos relacionados com o capital humano, as habilidades e o empreendimento dos jovens. A prosperidade e o bem-estar da região dependem disso.